Fala baixo Chico.
Não grites.
As seringueiras irão
chorar lágrimas brancas.
Lágrimas grossas de
saudade de Francisco.
O Mendes.
Aquele que as rasgavam
com tanta mansidão
E poesia para
retirar-lhes a seiva
Que mais parecia um
rasgo de elogio.
Um rasgo de amor.
Uma carícia de irmão
agradecido pelo sustento
Que viria dali.
Fica Chico.
Senão o seringal não vai
chorar apenas,
Irá uivar o uivo
doloroso do adeus ao amigo
E companheiro.
Irá gritar para o céu
da Amazônia que a esperança morreu.
Que o apelo do ativista
parou.
Tua boca calou para
sempre.
E teus olhos dormiram o
sono do nunca mais.
Ah, Francisco,
Fala baixo para os
gananciosos não o ouvirem.
Eles não perdoam.
Depois como vais
peregrinar pela selva
Com o coração de
guerreiro?
Nunca mais Chico,
Andarás com essa alma
de gigante
Por entre os altos
arbustos amazônicos
E a floresta vai morrer um pouco.
Elas sentirão falta do teu abraço protegido.
Daqueles que
distribuías para defendê-las
Com teu corpo nos empates.
Fica em silêncio Chico
que teu hino
De amor está ferindo
interesses de alguns.
Eles não têm piedade e
vão determinar tua partida.
Eterna.
Sem retorno do Mendes.
Nunca mais ouvirás o
canto melodioso da cotovia.
E o inhambu vai piar
sem teus ouvidos para escutá-lo.
Ouve Francisco,
Deixa de bobagem e
dorme mais um pouco.
Não levantes cedo demais para ires ao sindicato
Bradar ao mundo que
eles matam a mata.
Eles irão te perseguir
e a pontaria deles é tão certeira!
Não erram.
Vão disparar até que
caias sem chance de te levantares
Para mais uma vez
Penetrares nos caminhos
recheados de folhas verdes
E musgos.
Melhor, não entres jamais
no sindicato.
Ele não precisa de
Francisco.
Volta a colher a
borracha,
Simplesmente,
Assim como um
seringueiro despretensioso e feliz.
O mundo é assim mesmo
companheiro.
Queres mudá-lo para quê?
Nem conseguirás ser
eleito para o preito que pretendes.
Tivesses sido talvez
fosse outra a tua história.
Seria?
O cargo político te
daria amparo?
Se desse Chico seria
interessante o povo te eleger.
Bem que mereceste!
Levantaste a voz bem
alta ao ponto de ferir ouvidos.
Inquietar consciências.
Incomodar pessoas.
E quantas!...
Espera Francisco, mais
um pouco na cama,
Hoje ainda são vinte e
dois,
Falta pouco para o
Natal.
Não queres ver mais uma
vez o menino
Que nasce da tua fala
de valente?
Depois os sapatinhos
das crianças ficarão vazios,
E sem os teus abraços,
também os corações.
Janeiro chegará com
Lótus
Se abrindo em adoração
Divina.
Estamos Francisco em
1988,
Vem por aí a virada do
milênio,
O céu ficará cheio de
rastros dourados
E com tantas promessas
de vitória que até acreditaremos.
Então esquece um pouco
esse seu caso de amor
Com a natureza e
sossega menino.
Teu menino ficará sem o
colo amigo do paizão querido.
E a menina entrará
sozinha pela igreja
Ao som da Ave Maria.
Cadê teu braço para
apoiá-la companheiro?
A mulher vai lamentar derramando
água dos olhos tristes,
O amor que lhe foi
tudo,
E a solidão será do
tamanho da Amazônia.
Não.
Não abras a porta
agora.
Volta para a cama.
Descobre que tens dor,
qualquer uma.
Permaneça quieto.
Lá fora está tão
sombrio e perigoso!
Teu banho pode esperar.
Tua vida pode
prosseguir valente guerreiro.
Só não saias agora pela
porta.
Talvez ele desista, vá
embora e deixa para depois.
Aí podes pegar a mulher
e as crianças e fugires.
Para onde?
Depois que o mundo é
tão pequeno!
Que pena Chico!
Então adeus meu
camarada.
Vai com Deus.
Eleni
Eleni
Nenhum comentário:
Postar um comentário